O Velho Cientista

escrito por Jhon Voese

Parte 1

A TV do bar estava ligada, mas poucos prestavam a atenção ao que ela dizia. Além do robô semi-humanoide que limpava o balcão, que devido à sua programação gravava qualquer estímulo que pudesse acrescentar conhecimento, também havia um homem velho ouvindo a notícia.

“-Hoje é um dia muito importante para a fundação Heinrich, pois o seu atual presidente, Kevin Heinrich, anunciou a parceria com a corporação Naturax, para exploração de novas espécies de vida no bioma Amazônico. – dizia a repórter com empolgação.”

– Nhá. Eu sabia que se deixasse o menino no comando ele iria me decepcionar. – falou o velho curvado sobre o balcão.

– O senhor Falava comigo?–inquiriu o barbot.

– Não. Acho que resmungava sozinho mesmo. Creio que a idade está me deixando rabugento e as reclamações me fogem ao controle. – respondeu o velho.

– Tudo bem senhor, se quiser desabafar alguma coisa, estou aqui para lhe servir. – continuou o mecanóide.

– Pois bem, acho que um pouco de conversa não fará mal a ninguém. Traga mais um pouco da sua melhor cachaça que vou lhe contar minha história. –disse o velho.

– Pedido interessante, devo dizer, pois posso concluir que falaremos do Brasil, e nada mais apropriado para regar nosso papo do que uma bebida típica desse país tão belo. – o barbot, tinha uma inteligência artificial que conseguia adaptar-se ao interlocutor usando, para isso, todas as informações que captava na conversa.

– Você até que é bem esperto para um barbot, devia estar na faculdade de robôs, ao invés, de servindo bebidas para velhos chatos como eu. – brincou.

– Minha programação, foi desenhada para ser uma boa companhia para os clientes do nosso bar e cá entre nós, a faculdade de robôs deve ser uma chatice maior do que as reclamações de qualquer velho chato. – respondeu o robô.

O velho riu como se fosse jovem outra vez. Pegou o copo com a dose de cachaça que havia pedido e de súbito foi tomado pelas lembranças triste que subiam na contramão do líquido que descia quente por sua garganta.

O robô paciente como só um barbot sabe ser, fitou o homem remoer sua histórias em silêncio, pois sabia que daqui a pouco seria engolido por histórias e aproveitou também para apreciar o silêncio.

– Eu nem sempre fui um velho chato com cara de mendigo. – começou o homem. – Há muitos anos eu estava na faculdade de astro biologia. Sentia que podia ajudar o mundo a entender melhor a vida fora de nosso planeta. Dois erros num só pensamento. Hoje percebo que nem mesmo podemos compreender a vida que está em nosso planeta, quanto menos entender o que está lá fora. E outra, os homens não querem entender nada. Eles só querem consumir, destruir e vender tudo o que for possível.

– É um pensamento bastante profundo. Mas, o senhor não deve se culpar por ter sido um jovem idealista. – aconselhou o robô.

– Puxa. Como é bom saber disso agora. – prosseguiu o homem. – Como eu dizia, o que eu buscava na faculdade era realmente entender o que é vida, e de alguma forma trazer algum benefício para nossa espécie, com todo o respeito.

– Não se preocupe senhor. Nós robôs ainda não temos esse tipo de pertencimento, mas não é por isso que eu deixo de compreendê-lo, pode continuar.

– Muito bem. Eu tinha 18 anos, estava a recém na minha primeira infância, o que poderia esperar do mundo selvagem em que vivemos.

Debatia muito com os professores sobre os rumos que humanidade tomaria, pois nessa época a medicina estava avançando muito. O ano era 2138 e a expectativa de vida já beirava os cem anos em média. Com algumas pessoas já alcançando os 120 e até 130 anos.

É lógico que a condição financeira influenciava o quanto tempo você viveria, mas de certa maneira até os pobres já estavam vivendo muito mais do que nos séculos anteriores.

A política de controle populacional já ensaiava leis para evitar que junto com a superpopulação viesse também um caos planetário. Outra coisa que também começava a mudar com o fato de as pessoas viverem mais era a pressa desenfreada que se estalou logo no início do milênio com a era da informática. Com o tempo, o ritmo frenético passou a ser mais lento e as coisas seguiam de um modo mais calmo.

Eu defendia a hipótese na fatídica conversa com meus professores que a vida seguia seu próprio ritmo. E que nós humanos éramos apenas uma das inúmeras formas que ela, A Vida, assumia para continuar existindo. Mas, eles riam de mim, pois ainda faziam parte da geração que Antropocêntrica e alguns levantavam a hipótese de a vida ter se desenvolvido especialmente para nós humanos. Que pretensão!

Como eu era jovem demais debatia por horas fervorosamente. Foi então que tiveram a ideia de me transferir da sede onde fazia meus estudos de observação espacial, no sul do Brasil, em Florianópolis, Santa Catarina, com o argumento de que eu devia entender melhor as espécies terrenas para depois estudar possíveis vidas fora de nossa nave mãe.

Eu, é claro, fiquei muito empolgado com a ideia de conhecer o Bioma da Amazônia e como os recursos eram da minha universidade embarquei na empreitada sem questionar. Sentia que lá iria desvendar os mistérios da vida terrena. Que pretensão a minha também!

Parte 2

Chegando ao Bioma pude ver de perto e estudar espécimes que para nós do sul tinham sido extintas, ou pelo menos nunca mais tinham sido vistas. Fiquei por quatro anos, trabalhando como estagiário do departamento de Taxonomia, que era um dos mais importantes de todo o Bioma, pois todo o complexo ainda estava em formação então tínhamos que estudar e catalogar cada nova espécie descoberta.

Depois desses quatro, eu passei a me focar mais nas formas minúsculas de vida e aos 23 anos comecei o doutorado em microbiologia. Mas, eu mantinha os meus ideais de algum dia poder conhecer ou até mesmo descobrir alguma forma de vida que fosse de alheia ao nosso mundinho. Eu batia o pé crente de que nós somos apenas um dos milhões de planetas que podem abrigar a vida.

O tempo ia passando e eu ia sentindo falta de olhar para cima enquanto meus chefes me diziam para olhar para baixo.

Nessa época estávamos trabalhando na produção de bactérias que podiam nos ajudar a acabar com as doenças. Uma guerra biológica contra a própria morte. Eu concluí as pesquisas, mas não me sentia completo.

Foi quando eu passava dos trinta anos que resolvi deixar os laboratórios públicos da faculdade para montar meu próprio Instituto de Pesquisa. A fundação Heinrich.

– O senhor. Está me dizendo que é Henry Heinrich?–perguntou o robô representando bem a curiosidade.

– Infelizmente, sim. – disse o velho.

– Infelizmente? Mas, o senhor é o responsável por muitas das descobertas científicas que mudaram toda a forma como o ser humano lida com a vida. Por que se sente infeliz? Não era isso que o Sir. Queria quando era jovem?

– Disse bem. Queria! Infelizmente o sucesso de minha carreira não fez com que minha vida pessoal fosse boa.

– Puxa, nunca imaginei que mesmo as figuras históricas também têm seus problemas pessoais. Mas, por favor, Sir. Continue a história, ficaria muito satisfeito em saber mais sobre a vida de tão ilustre figura que é o Senhor. Pelo banco de dados que tenho o Senhor desapareceu quando a fundação completava apenas cinquenta anos. Por onde andou nesse tempo? – dessa vez o robô estava mesmo curioso, isso fez com que até o velho se espantasse.

– Pois bem meu rapaz, posso lhe chamar assim, não é?

– O senhor manda, lembra-se?

– Que seja.

Como eu dizia…

Iniciar a Fundação Heinrich era para mim a realização de um sonho. Voltar a olhar pra cima e ainda por cima me livrar dos burocratas que não sabem nada de ciência e mesmo assim eram os chefes, era muito bom.

Os primeiros anos se desenrolaram lentamente, pois mesmo o dinheiro que eu havia guardado seria pouco para a ambição de meu projeto. Consegui convencer alguns alunos meus dispostos a usarem seu tempo em troca de prestígio e conhecimento, que é um modo bonito de dizer que eles trabalhariam por pão, água e um teto.

Nossa vida no bioma começou com apenas um laboratório simples e uma equipe de 7 pessoas.

Como eu era o mais experiente precisava me desdobrar em orientá-los nas pesquisas e por outro lado conseguir recursos. Como eu disse: Os homens só querem consumir, gastar e vender. Mesmo minha fama no campo acadêmico não era suficiente para que as empresas investissem em nós. Os governos então!Pior ainda, chegava a ser embaraçoso tentar convencer algum político disposto a fazer algo que não poderia nem usar como plataforma eleitoral, pois só daria frutos no longo prazo. Mas, mesmo assim eu tentei. Sem frutos, mas tentei.

Os primeiros dez anos de instituto foram sofridos, mas muito empolgantes. Conseguimos dinheiro de instituições pequenas e até alguma verba governamental. Nada muito generoso, fato, mas podíamos até nos dar ao luxo de termos cafezinho para os estagiários. Tudo era muito divertido, minha rotina de pesquisas ia bem. E foi aí que a coisa começou a desandar.

Os telescópios que usávamos já estavam sucateados de mais e muitas das nossas pesquisas não levavam a lugar nenhum. Os institutos internacionais levavam tempo para reconhecer os laboratórios e por sermos independentes éramos tratados como lixo pelas grandes indústrias científicas.

Eu tinha um estudo da época que estava na faculdade sobre um micro organismo que conseguia quebrar moléculas de gordura. Na época, ninguém se interessava por ele, mas hoje em dia como o padrão de beleza voltou a ser “a magreza”, talvez alguém se interessasse.

Vendi a patente para uma indústria de cosmético por bilhões. O dinheiro agora não era mais o problema. Nesse meio tempo houve muitas festas para promover o cosmético e eu mesmo já não detendo os direitos fui generosamente convidado pela empresa, à mesma que hoje é conhecida como Naturax. Foi num desses eventos que conheci a mulher da minha vida.

Ela era linda. A mais linda. Tudo que eu precisava para me por nos eixos. Ela era uma mulher fina, nascida e criada na alta classe. E eu mesmo depois bilionário, ainda me sentia como um Zé ninguém.

Eu queria escrever meu nome na história, isso eu não nego, mas através da importância que meu trabalho tivesse para a humanidade. Não por fazer um “remédio” para as pessoas insatisfeitas mudarem seus corpos. Só que eu precisava daquele dinheiro. E naquele momento eu precisava daquela mulher.

Nossa vida de casal foi excelente em quanto durou, ela me ensinou como ser alguém importante. Como deveria me comportar na alta sociedade. Ajudou-me a acabar com todos os meus vícios. E nada disso eu me arrependo. O que acontece é que a cada dia de felicidade que eu tinha com ela, mais eu me afastava do meu sonho científico.

Tive que me afastar da minha equipe.

E com isso acabei deixando para lá, todo o trabalho de anos de pesquisas. Deixei pra lá tudo o que me fazia ser… Eu.

Mesmo depois que as crianças nasceram. Nada mais me animava. Nem mesmo os primeiros passos. Nem mesmo as risadas. Até que um dia eu resolvi fugir. Foram quarenta anos de vida com aquela família. E eu abandonei tudo novamente. E corri atrás do que eu realmente era. Quem eu realmente era. Mas, quando cheguei lá, percebi que tudo tinha sido em vão. Não havia mais sonho, não havia mais “o que eu era”, por uma razão óbvia, nós somos o que agente vive. E nessa busca por uma identidade que nunca estava lá eu gastei todo o meu tempo.

Hoje eu sou apenas isso aqui.

Um velho mendigo sentado num bar.

Parte 3 – Final.

Após um momento de silêncio o barbot resolveu romper a melancolia do velho.

– O senhor está enganado.

– Hã? – perguntou o velho confuso.

– O senhor não é só isso. Só um velho mendigo sentado num bar. O senhor é tudo isso. Toda essa história é sua e de mais ninguém. Tudo o que Viveu é o que faz diferente dos outros. Não foi isso exatamente o que o senhor aprendeu com a vida?

– Puxa. Nunca pensei que estivesse tão na cara assim. Você tem razão meu jovem roboto – o velho sorriu. – Eu sou isso mesmo. Todo esse tempo eu sempre fui e talvez eu ainda continue sendo por mais alguns anos. Hehe.

O robô sentiu-se satisfeito pelo sorriso do homem que terminou a sua bebida. Colocou o chapéu e após um aceno foi embora. Como o velho era o último cliente, o robô pode finalmente descansar de sua rotina robótica. Terminou de limpar o balcão. Fechou tudo e foi para sua cabine recarregar as energias.

Chegando lá se conectou a rede neural de repouso que era sua companheira e que o recebeu dizendo:

– Olá querido. Que bom vê-lo em casa!Como foi o seu dia de trabalho?

– O dia foi tranquilo. O problema foi agora pouco antes de fechar o bar. Você acredita que apareceu mais um velho maluco achando que Henry Heinrich, o bilionário desaparecido?

– Relaxa meu bem. As pessoas de hoje acabam ficando muito confusas com suas múltiplas vidas. Amanhã, você quer despertar cedo?

– Sim, sim pretendo levar o cão para passear. Boa noite meu bem!

– Boa noite querido, tenha bons sonhos!

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