Resenha – O Vilarejo

por Jaime de Andruart

capa_O Vilarejo.pdfConfesso que enquanto penso em como começar esta resenha, ainda estou abismado com essa obra-prima do terror, escrita pelo carioca Raphael Montes.

Apesar de o livro carecer de volume – possui apenas 96 páginas –, compensa isso com sete contos muito bem construídos, nos quais podemos ver a maior vileza possível de se encontrar nas atitudes de pessoas desesperadas. Do canibalismo à pedofilia, da escravidão ao assassinato, tudo o que há de mais degradante que um ser humano pode fazer está em algum desses contos.

A premissa do livro é contar a história da decadência de um vilarejo perdido entre as montanhas de algum país do leste europeu. Fatigados pelo frio, pela fome e pela guerra, os habitantes começam a perder o controle, a tramar uns contra os outros, a ficarem paranoicos… E é aí que entram os estudos de um padre demonologista do século XVI que classificou cada um dos sete pecados capitais como tendo ligação direta com sete demônios específicos. Cada um dos sete contos, portanto, principia pelo nome de um demônio, seguido de um subtítulo. A seguir, darei meu parecer a respeito de cada conto, portanto se você não quer revelações sobre o enredo, fique avisado que há…

!!! SPOILERS À FRENTE !!!

Belzebu: Banquete para Anatole é o conto que principia o show de horrores que é O Vilarejo. Baseado no pecado da gula, conta a história de Felika, uma mãe presa em casa com seus três filhos enquanto espera Anatole, o marido, voltar da viagem que fez para caçar. A situação de miséria é tão terrível que logo no começo nos confrontamos com o fato de ela comer apenas uma vez a cada quatro dias, e as crianças a cada dois. Logo, ouvimos uma batida à porta. Com fé de que seu marido retornou, ela vê apenas um alarme falso: é Helga, uma idosa cega, que vem avisá-la de que seu cão-guia foi assassinado, e que os habitantes do vilarejo estão sumindo… Felika rechaça a velha, pois não tem o que dar de comer nem aos filhos. Em seguida, alguém mais bate na porta. É Anatole, trazendo em sua bolsa os coelhos e ratos que conseguiu caçar. Abraça a esposa e repara que, apesar da falta de comida, ela está até mais gorda. Convidado ao banquete que ela preparou para a volta dele, o pobre homem se vê em meio a uma cena infernal, onde seus três filhos jazem desmembrados à volta da mesa, e os corpos do que um dia foram os vizinhos jazem no chão.

Nota dez para o desfecho. Crianças sendo devoradas pela própria mãe numa verdadeira orgia de canibalismo? Ótima forma de começar um livro de contos de terror.

Leviathan: As Irmãs Vália, Velma e Vonda, é o conto destinado ao demônio da inveja. Bastante tenebroso por trazer uma criança, suposto símbolo da inocência, a um patamar onde mesmo poucos adultos poderiam chegar. A história começa com Vália, a irmã mais velha, levando as gêmeas Velma e Vonda para brincarem no descampado. As pequenas brincam de inventar histórias sobre os habitantes do vilarejo, e acabam começando a fantasiar sobre Krieger, namorado de Vália, e o rapaz mais belo da cidade. Na história das meninas, Krieger divide-se entre três amores: as três irmãs. Vonda, apesar de idêntica a Velma, sabe que fica em desvantagem em relação às outras duas por causa da enorme mancha que carrega em torno do olho direito, e, confundindo ficção infantil com realidade, elabora um plano para ser a única vencedora nesse jogo de amor.

Lúcifer: O Negro Caolho é o terceiro conto, ligado ao pecado da soberba. Como em qualquer vilarejo pequeno no leste da Europa, todos os habitantes são brancos e de olhos claros. Imagine-se então o rebuliço que causaria a chegada de um homem negro estrangeiro. Devemos estar cientes de que a história se passa provavelmente antes da metade do século XX, portanto o racismo é inevitável. Assustados com a presença do homem, que é caolho e fala uma língua estrangeira, os habitantes do Vilarejo planejam executá-lo em praça pública, acreditando que ele é um demônio. Uma versão jovem de Helga se mostra contra a barbárie que estão prestes a fazer, e acolhe o homem, de nome Mabuto, em sua própria casa. Aos poucos, ensina a ele sua língua e seus costumes, e deixa que ele ajude nas tarefas… Ajuda essa que gradualmente se transforma em um trabalho escravo. Cada vez mais rígida com o homem que acolheu e protegeu, Helga passa a tratá-lo como um animal, e ele não vê mais motivos para permanecer naquela situação. Mabuto precisa encontrar suas duas filhas que foram sequestradas, e sabe que elas estão em algum lugar do vilarejo. Sendo humilhado e desprezado por Helga, Mabuto resolve confrontá-la, e como tudo é desumano no vilarejo, nem mesmo a verdadeira vítima está isenta da sangrenta brutalidade que se segue.

Um dos meus contos favoritos, que mostra perfeitamente como mesmo as pessoas mais travestidas de boas intenções podem se transformar em monstros, caso se permita que elas cheguem a esse ponto. O ponto alto, no entanto, é o fator do racismo: como parece tão fácil aos habitantes do vilarejo remoto julgar um homem que não conhecem como uma aberração ou um demônio unicamente por conta de sua cor de pele, da falta de um olho e da língua estrangeira. Preconceito é a palavra-chave para esse conto, que demonstra perfeitamente como violência gera violência.

Asmodeus: A Doce Jekaterina trata da luxúria. Seguimos a história de um obeso mórbido chamado Mikhail, que, sentado na sala de espera de um hospital, fica relembrando de seus antigos vinte anos, quando gastava o dinheiro todo com bebida e prostitutas. Fascinado desde jovem por mulheres obesas, acaba vendo na pequena e gorducha Jekaterina, de treze anos de idade, a chance de afogar o seu intenso e criminoso desejo. Ameaçando a menina, consegue abusar dela todas as semanas até um dia em que ela vai embora, e então nunca mais a vê. Sem mais nada a fazer no vilarejo, muda-se para a cidade grande e lá, muitos anos depois, recebe à sua porta uma prostituta cujo rosto conhece bem: Jekaterina. “Quero sexo, Mikhail.”, diz ela, e Mikhail, feliz, com saudades da sua “doce Jekaterina”, a convida para entrar. Durante uma breve troca de carícias antes de começarem qualquer coisa, a menina, agora mulher, escarra dentro da boca do pedófilo, e sem dizer palavra alguma, vai embora sem sexo algum. Desde então, Mikhail passa a sentir-se mal, e resolve ir ao médico. No fim, descobre que alguém lhe passou lepra.

Considero esse um dos contos mais grotescos de todo o livro. Seguimos a jornada de um pedófilo e os desdobramentos de seu crime, que levou uma criança à vida da prostituição alimentada pelo sentimento de vingança. Este é o conto que nos mostra que O Vilarejo não está brincando em serviço quando se propõe a ser um livro de terror.

Belphegor: A Verdadeira História de Ivan, o Ferreiro. Mais um conto que trata dos aspectos mais torpes da baixeza humana. Retratando no protagonista Ivan o pecado da preguiça, descobrimos que o “melhor ferreiro” das redondezas na verdade usa o trabalho escravo de duas irmãs negras que comprara de um velho que as trouxera em uma maleta quando ainda eram crianças. Atormentado pela falta de comida, decide mandar uma matar a outra, para que possa se alimentar, até que recebe a inesperada visita de Felika, provavelmente trazendo boas notícias…

Comprar duas crianças e usá-las por anos e anos para ganhar dinheiro e fama, apenas por preguiça de trabalhar… E ainda matar o pai desesperado que veio procurá-las (eu não havia mencionado ainda? Pontos a mais para a brutalidade desse conto). Ivan certamente divide com Mikhail o pódio de cidadão mais vil do vilarejo.

Mammon: O Porquinho de Porcelana da Sra. Branka. Ganância. A Sra. Branka é uma pessoa que estima o valor de tudo. Quando uma tragédia se abate sobre a família – sua netinha recém-nascida fica órfã de pai e mãe –, a Sra. Branka toma Latasha para cuidar, ensinando à menina o valor do dinheiro e da economia. Um dia, o contador da Sra. Branka a visita, trazendo uma mala com um porquinho de porcelana. Ele instrui a velhinha com o máximo de ênfase possível a cortar todos os gastos desnecessários. Isso inclui comida de qualidade e os livros que Latasha precisa para estudar. Após algum tempo vivendo assim, a menina não aguenta mais e resolve tentar roubar uma moeda do cofrinho, mas a quebra do objeto causa um ataque à idosa, que fica de cama, alimentada por Latasha com tudo o que ela mais gostava na vida… Pouco tempo depois, a Sra. Branka morre intoxicada por cobre e níquel.

Satan: Um Homem de Muitos Nomes é o conto que dá metade do desfecho genial do livro – a outra metade está no posfacio. Baseado no pecado da ira, retornamos a Anatole, o caçador, perdido há semanas na vastidão da neve, sem encontrar nada que valha a pena levar para casa. Faminto e exausto, é acudido por um velho com uma maleta, que lhe dá alguns coelhos e ratos para levar para a família, mas chega em casa e se depara com a monstruosidade do primeiro conto… Descontrolado, tem um ataque de fúria e sufoca a esposa até a morte. Arrepende-se na mesma hora, e sai desnorteado, batendo de porta em porta, até ser recebido na casa da velha Helga por um conhecido velho curvado. “Eu tenho muitos nomes”, diz o velho que o acudira anteriormente. Anatole pergunta quem é aquele homem, que confessa ter influenciado todos no vilarejo a exercerem o mal que há muito carregavam no coração. Vendeu escravas para Ivan, influenciou Mikhail à sua atração por crianças, deu de presente um cofre sem fundo para a Sra. Branka… Inconsolável, Anatole tenta não acreditar que era injusto com sua família em seus arroubos de fúria, mas o velho apenas o presenteia com uma arma que possui uma única bala. Anatole diz que poderia matar o velho com aquilo, mas recebe como resposta apenas “Sou imortal, filho. Não tente uma besteira dessas.”

Esse conto demonstra o quão bem construídas foram as conexões formadas e apontadas em todos os outros. Coisas que não pareciam fazer muito sentido, ou que pareciam forçadas anteriormente, encontram agora um local onde fazem sentido.

!!! FIM DOS SPOILERS !!!

Após esse longo resumo, tudo o que tenho a dizer é que O Vilarejo é um livro recomendadíssimo a quem tem um estômago forte e quer ler um terror mais sério e sujo. Seus sete contos, conectados entre si nos mínimos detalhes, podem ser devorados em apenas uma noite, conforme o fiz, mas a marca deles na memória é algo que permanece por muito tempo, conforme também o comprovei.

Além disso, devo dizer que pela primeira vez encontrei um prefácio e um posfácio úteis numa obra. Ambos perfazem um conto extra por si próprios, e valem a pena serem lidos de acordo com a ordem do livro, para que o efeito causado seja captado com sua maior intensidade.

O trabalho gráfico também é excelente, com manchas de sangue em algumas páginas, e assombrosas ilustrações em todos os contos.

Se há algo de negativo a se dizer sobre a obra, é realmente apenas sua brevidade. O Vilarejo cumpre perfeitamente o que promete, e tem uma unidade temática dificilmente alcançada pela maioria dos livros até mesmo de autores consagrados.

Finalizando, para quem leu e deu nota máxima a esse livro, como eu, resta apenas esperar que o autor resolva escrever algo na mesma linha futuramente… Quem sabe os sete pecados capitais do século XXI?

Sobre o autor

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Aos vinte anos, impressionou crítica e público com Suicidas, Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2013, entre outros. Seu romance Dias perfeitos, publicado em 2014, teve os direitos de tradução vendidos para treze países. Ambos os livros tiveram os direitos de adaptação vendidos para o cinema. Atualmente, Raphael assina uma coluna mensal no Blog da Companhia das Letras e outra no jornal O Globo.

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