Resenha e Análise – Minha Desgraça

por Jaime de Andruart

Hoje farei algo diferente aqui na Avessa. Não apenas uma resenha, mas uma análise minuciosa de um poema escrito por um de meus autores favoritos, tentando ao máximo levar em consideração apenas o único material de trabalho de que o autor nos dispôs: o seu próprio texto.

Com apenas três estrofes, Minha Desgraça é um dos poemas mais curtos de toda a obra de Álvares de Azevedo.

Quanto ao enredo, o poema, em primeira pessoa, é uma construção da definição do que é a “desgraça” do eu lírico. Essa construção se dá por meio de diversas ferramentas, que serão enumeradas e comentadas daqui por diante. Para isso, porém, é necessária a transposição do poema, conforme segue:

01 Minha desgraça, não, não é ser poeta,
02 Nem na terra de amor não ter um eco,
03 E meu anjo de Deus, o meu planeta,
04 Tratar-me como trata-se um boneco…
05 Não é andar de cotovelos rotos,
06 Ter duro como pedra o travesseiro…
07 Eu sei… O mundo é um lodaçal perdido
08 Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro…
09 Minha desgraça, ó cândida donzela,
10 O que faz que o meu peito assim blasfema,
11 É ter para escrever todo um poema
12 E não ter um vintém para uma vela.

A primeira característica que salta aos olhos é a regularidade dos versos. Decassílabos são úteis para dar uma constância agradável ao texto. Com tônicas na sexta e na décima sílabas, sentimos um ritmo em Minha Desgraça que culmina naturalmente na ironia dos versos 11 e 12.

Mas comecemos pelo começo.

O termo “Minha desgraça” que inicia o poema funciona como um mote para o resto do poema. Será retomado tanto na segunda estrofe, de forma elidida, no verso 5, e na íntegra no verso 9, que principia a terceira estrofe. É em torno dessa expressão que é criada toda a estrutura da ideia do poema: as duas primeiras estrofes, resumidas, dizem “Minha desgraça não é tal ou qual coisa”. A última estrofe, porém, diz “Minha desgraça é determinada coisa”. Assim, temos 2/3 do poema tratando do que não é a desgraça, enquanto apenas míseros 1/3 tratam, de fato, do assunto em questão.

Na segunda estrofe temos um acontecimento interessante. Duas afirmações de algo que é, mas não em relação à desgraça: “Eu sei…. O mundo é um lodaçal perdido / Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro…”

Essa passagem faz uma espécie de ponte entre os vários exemplos do que não é a “minha desgraça” nas estrofes I e II, e a terceira estrofe, a qual irá explicar o que ela é. Os termos “lodaçal perdido”, bem como a comparação do sol com o dinheiro são exemplos de como a singularização torna mais específica a ideia que o poema quer passar. Tratar o dinheiro como o sol nesse momento dá uma ideia do que está por vir, ou seja, antecipa o fechamento do poema com uma bela comparação.

A terceira estrofe pode facilmente ser considerada a mais interessante. Nela não apenas se encontra o encerramento do poema, como também alguns detalhes que a princípio poderiam ser tomados por erro do poeta. Se levarmos em consideração que a obra tem sua própria voz, e deve ser interpretada de acordo com os detalhes que ela mesma nos propicia, podemos contrair desses detalhes significados mais profundos do que poderíamos imaginar. Isso se dá no verso 10: “O que faz que o meu peito assim blasfema”. Realmente, uma primeira olhada nesse verso pode fazer alguém mais linguisticamente purista torcer o nariz. Um verbo conjugado incorretamente (“blasfema” em vez de “blasfeme”) deve ser muito bem explicado. E podemos explicá-lo com perfeição, e ainda mais: podemos provar que esse simples “erro” gramatical é uma das principais ferramentas contribuintes para o significado da obra.

Por quê? “Blasfema” está, conforme pode-se ver no verso 11 a seguir, forçando uma rima com “poema”. Isso por si só não diz grande coisa. Uma rima forçada não é algo tão incomum em outras obras do sistema de literatura romântico. Mas isso se sobressai em Minha Desgraça justamente pela temática e pelo cenário do poema: o narrador está se queixando de não ter recursos para comprar uma mísera vela para poder escrever o seu poema. Portanto, com uma fonte de luz escassa, é possível ver que a forma do poema (o “erro” gramatical) retrata a pressa do narrador em terminar sua obra.

Outro aspecto que nos leva a crer nessa pressa do narrador é a extensão do poema: com apenas três estrofes, ainda nos é dito no verso 11 “ter para escrever todo um poema”. Ora, sem luz não se pode escrever muito mais do que uma dúzia de versos, utilizando-se de rimas forçadas e um sentimento claro de falta de revisão.

Assim, podemos ver como cada aspecto físico do texto remonta a algo de seu significado e ideia gerais.

O eu lírico é o próprio Álvares de Azevedo? Nesta análise podemos claramente afirmar que não. Apesar de o narrador/eu lírico partilhar de situação coincidente à biografia do poeta, ele foi tomado aqui como uma ferramenta literária e nada mais do que isso. Ele faz parte do texto, e não o contrário.

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