Resenha – Memórias de Lord Byron

860033Quem ousaria queimar um livro após lê-lo? Pior: quem ousaria queimar as memórias de uma das personalidades mais proeminentes do romantismo, George Gordon Noel Byron, mais famoso pelo título de Lord Byron? Aqueles que o conheceram, claro.

As memórias de Lord Byron são um documento perdido, literalmente queimado pelos seus entes próximos logo após sua morte. Segundo se cria, havia no manuscrito um teor de pecado e ofensa além da compreensão para a época. Provavelmente, supõe-se, por conta de suas relações homoafetivas detalhadas e seus inúmeros escândalos amorosos, bem como possivelmente uma relação incestuosa com sua meia-irmã Augusta.

Felizmente o escritor Robert Nye (1939-2016) nos trouxe a ficção histórica Memórias de Lord Byron (The Memoirs of Lord Byron, no original), que tenta reconstruir o que o lendário poeta poderia ter dito nas suas memórias reais.

Em questão de forma, o livro é bem simples, seguindo uma linha cronológica crescente e definida: os primeiros capítulos tratam da infância e juventude do poeta, enquanto os últimos tratam de sua vida pouco antes de sua morte.

Narrado em primeira pessoa, é espantoso ver como Robert Nye consegue nos fazer crer que o próprio Byron poderia estar dizendo aquelas palavras. As marcas essenciais do poeta estão ali: o tédio e o sarcasmo. Quase que a cada parágrafo, encontramos um trocadilho ou um twist de extremo mau gosto. Ou seja, bem à moda de Byron.

Além disso, pode-se encontrar no curso das cenas fatos que realmente ocorreram entrelaçados a fatos meramente presumidos, mas ainda assim completamente plausíveis. Robert Nye conseguiu mascarar muito bem o fato das Memórias serem uma obra de ficção.

A leitura do romance, se é que assim se pode chamá-lo, e com perdão pelo trocadilho, não demanda conhecimento sobre o poeta e nem sobre sua obra, pois ao longo dele, encontramos fragmentos de seus versos e a história de seus trabalhos mais famosos, bem como a construção de suas relações mais próximas. Portanto, tanto um fã de Byron quanto alguém que jamais o tenha lido pode ler as Memórias de Lord Byron sem qualquer problema de entendimento.

Um ponto negativo, porém, é a pressa com que os últimos capítulos parecem ter sido escritos. Enquanto no começo do livro temos capítulos mais extensos, sua extensão vai gradativamente diminuindo conforme a leitura segue. Um pouco mais de trabalho no detalhamento dos fatos, ainda que isso aumentasse o teor fictício, não faria mal algum, e deixaria a obra levemente mais uniforme.

O veredicto, de qualquer forma, é positivo. As Memórias de Lord Byron, por Robert Nye, são algo que, se não acrescenta à vida real do ícone romântico, ao menos satisfaz um pouco uma curiosidade que já transcende dois séculos.

Sobre o Autor

Robert Nye, nascido em 1939 e falecido em 2 de Julho deste ano (2016) foi um poeta e autor britânico. Membro da Sociedade Real da Literatura, é mais conhecido pelo sucesso de seu romance Falstaff, publicado em 1976, o qual foi descrito como “um dos romances mais ambiciosos e sedutores da década. Robert Nye também se aventurou na escrita de peças teatrais e histórias infantis, embora jamais tenha deixado de se sentir um poeta acima de tudo.

Resenha por Jaime de Andruart

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